Quarta-feira, Setembro 02, 2009

Sobre presídios, celas e galimatias*




Aquela fila interminável, cabeças e mais cabeças apertadas, desencontrando-se, dando umas nas outras. Não tem espaço pra respirar, melhor é evitar até de se mexer, caso estiver sufocando, no máximo olhar pro alto.

O ar pesado, as grades apertam ainda mais o horizonte. Um cubículo que não cabem seis, enfiam vinte, e ainda falam de direitos. De pensar na liberdade, muitos irmãos tentam lembrar de como era o vento correndo, os pés no chão.

Como será que ninguém age pelo que acontece aqui, meu Deus? Não somos todos criaturas suas?

Da infância lembro bem, Mamãe e a vida no campo. O calor de nossa casa, simples, mas confortável.

Pára. Não, lembro não.

Mexeram tanto no meu entendimento, esse confinamento que impede o raciocínio; lembro só do pouco espaço, difícil de acostumar, e da comida à vontade dia e noite, meus irmãos separados e essa memória, arranhando lá do fundo, como afogado se batendo. Um carimbo e um anel de ferro na perna.

Nós crescemos rápido, um abrir e fechar de olhos e se é adulto. Vi muitos irem e não voltarem. Cada vez que saía outro, eu ansiava nunca ter vez de ir. Uma loucura, rebuliço, que de nada adiantava. A gente seguia numa toada triste por parecer não se importar. Não é o caso de propagação da espécie ou questão de sobrevivência.

Oh, angústia de forca, colarinho apertado de deixar roxo o pescoço mais grosso que houver por aqui. Uma engorda falsa, de gás e água: triste. E cada vez que nova leva se faz, vem junto apressado fazendo a fila andar, ele, o pesar tão repelido a base de bicadas.

De tão gordo, peito e coxas fartas, fica ruim de andar. Faz parte do plano deles. Até nos dão remédios. Cruéis demais esses tipos, agradam e apedrejam com a mesma satisfação. Mão suja de sangue e fezes, mão de assassinar.

Será que nos falta pêlos, meu Deus? É isso?

Depois de tanto sofrer, nos pegam, nos levam, nos deixam. Das grades estreitas pra outras maiores, pulando, assim, sem parar. Neste bate e rebate muitos coitados não chegarão. Nos largam por ali, um lugar novo, cheiro diferente, mais entranhado de morte na serragem do chão. Ela de novo. A maldita espera.

Um homem menor que os outros olha pra nossos irmãos que se foram e diz coisa entre os dentes. Dá pra notar seus olhos faiscando.

A natureza tem seus próprios mecanismos, suas peças, o silêncio confortador é artifício pra não nos impressionarmos. Minha grade é a última da pilha, visão especial para o corredor.

Horror.

São máquinas e mais máquinas. Dependurados pelos pés, cadáveres em fila e sem pele, sem cabeça. Reconheço alguns companheiros. Degolam e colhem o sangue. Mergulham-nos em um caldeirão fervente. Batem pinos de borracha pelo corpo, arrancam. Escapam. Só pra caírem nas mãos de outros que, com destreza, abrem as barrigas e desenrolam as tripas por ali.

Não somos nós bípedes, meu Deus? Que nos falta então?

Repete-se por longas horas a agonia. Até que cessa. O dia fica escuro, não sei bem ao certo o porquê, mas eu entendo que isso é noite. Vem a comida, engodo que já não me faz, tamanha a desolação. Amontoam-nos todos juntos numa jaula maior, cheia de andares. No dia seguinte satisfações serão dadas. Minha escolha: ser assado inteiro ou mutilado, como ao freguês melhor convier.

- Mãe, os frangos sentem dor?

- Sei lá, garoto! Você tem cada uma... Isso, esse gordinho aí mesmo, é.


Segundo o Aurélio:

* Galimatias”:

1. Discursos arrevesados, confusos, obscuros; babel de palavras cujo significado mal se pode entender.

2 . Música. Composição híbrida, sem forma definida.

Quinta-feira, Agosto 27, 2009

Gosto ruim na boca


Ontem ouvi tiros. Aliás, tenho ouvido tiros freqüentemente. Acordo meio assustado, boca seca, coração acelerado. Antes, costumava botar na conta do meu histórico de abusos e excessos num passado não muito distante, afinal, distúrbios do sono, da memória, enfim, todos estes sintomas costumam ser diagnosticados como influência deste fator. Mas não, nada disso. O real motivo do meu sono picotado são as rajadas intermitentes disparadas pelos traficantes da comunidade próxima a minha casa. Nada de pânico, advertem moradores mais chegados, os tiros são para o alto.

Os rapazes, uma versão carioca dos guerrilheiros somali, estão apenas comemorando. Comemorando? Sim, festejam a estabilidade econômica e a paz interior trazida após travarem batalha contra a facção rival. E olha que nem foi tão difícil. O morro em questão, ponto estratégico para o atual comando, sempre foi pacífico. Nós, jovens contraventores de outrora, inclusive nos orgulhávamos de termos uma vizinhança tranqüila, calma – a isso se entende: ir e vir livremente em seu bairro sem ser incomodado; conhecer de verdade os moradores da redondeza, chamar pelo nome, apertos de mão e bons-dias incluídos; brincar na rua até a noite esvair e a madrugada chegar; bons tempos...

Entretanto, o que vemos hoje é um espetáculo triste, onde homens fardados de azul, um tanto assim trágicos e um outro tanto violentos e hipócritas, divertem uma platéia sedenta por sangue digladiando-se com jovens esqueléticos. A polícia ouve os tiros, vem, dispara os seus a esmo, vez em quando mata "acidentalmente" alguém, ônibus são queimados, mães choram copiosamente ao vivo nos telejornais e só. Segundo a última estimativa de um desses órgãos “competentes”, a faixa etária dos traficantes debilitados que mal seguram o fuzil direito vai de 17 a 25 anos; assistimos impassíveis a um verdadeiro massacre dos jovens pobres. Controle demográfico a la Holocausto.

De concreto temos: os caras não têm educação, saúde, nem lazer; não é de se admirar que tenham colocado a mão na massa e resolvido as coisas por conta própria. Numa vida quase sem alternativas, com pessoas logo ali embaixo desfilando em seus automóveis reluzentes e comendo em restaurantes onde nem mesmo parar na porta eles podem, o nosso promissor futuro do Brasil não vê melhor chance de emprego do que ingressar nas fileiras do tráfico. Até aí, ok, a vida é dura mesmo, todos sabem. O que não agüento mais é esse discurso rancoroso por parte de alguns setores, eles mesmos, diga-se de passagem, mantenedores desse status quo desigual. Essa perseguição inquisitória aos usuários, aos menos favorecidos; esse preconceito dissimulado, escondido e negado, pois o Brasil é um país altamente miscigenado onde todos são mestiços, logo, iguais, porém as exceções se dão exatamente onde começa o seu condomínio e onde termina o meu Piscinão de Ramos. Ai do pobre que ousar adentrar certos santuários imaculados da nossa elite ressentida e com nojinho de gente suja. Ai dele, animal exótico.

A vida na República continua a mesma da Monarquia. Os descendentes dos escravos alforriados continuam sofrendo a dureza do pão que seus antepassados amassaram. E o pior: nem do pito, que tanto acalentou os negros aqui recém-chegados, podem mais usufruir. Não vou nem exprimir minha opinião quanto aos canelas-pretas que, de tanta proximidade com a marginalidade, refletem praticamente de forma perfeita o seu comportamento. Um batalhão de despreparados e mal-intencionados, o substrato da incompetência.

Ao longo das semanas, a cena se repete: a patamo vem, dá suas voltas de reconhecimento, estaciona, finge trabalhar. Não demora muito uma criança semi nua entrega um pacote ao macaco-do-governo mais graduado presente, é o arrego, din-din, garantia de paz temporária. "Tá tranquilo, tio!". Autorização dada. Teremos algumas horas de sono.

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Fumaça no campus

A PUC-SP aperta o cerco contra o pessoal que gosta de fazer a cabeça. Pra quem é muito doido, essa notícia nem merece ser discutida. Proibir de fumar um baseadinho? Qual é. Mas o fato é que esse movimento, como uma onda de caretice crônica, migrou e contaminou, obviamente, o nosso bastião do estilo de vida prayboy no Rio: a carésima e formadora de opinião instituição católica PUC-RIO.

A galera do DCE de Ciências Sociais, conhecida por seus famosos churrascos com duas lingüiças e 200 caixas de cerveja, terá de discutir Weber caretinha, caretinha. Claro que esse papo todo rendeu polêmica. Legalização, descriminalização, hipocrisia, culpa da minha tia; todos esses tópicos se acenderam no debate. Que universitário fuma maconha todo mundo tá cansado de saber. Que profissional liberal fuma maconha, também. Que diversos senhores distintos, inclusive aquele seu último chefe, com a maior cara de prego, fuma maconha, enfim, muita gente da empresa sabe; então é chegada a hora de pararmos de fazer vistas grossas. Entendo a posição do reitor paulistano que, sentindo-se ofendido à época do caso de Suzane von Richthofen (aquela louca que assassinou os pais, lembram?), quando o best-seller de auto-ajuda Içami Tiba sentenciou A PUC é um antro de maconha", meteu dois processos por danos morais e difamação pra cima dele e mandou o dublê de psiquiatra rapidamente de volta ao Domingão do Faustão.

Com todo o vulto atingido por tal política “repressiva e moralista”, os universitários de 17 anos e militontos de 35 que ainda não colaram grau organizam-se para reaver seu direito de fumar um em paz. Pra essa gente criada em apartamentos com quartinho de empregada, é um direito inalienável aplaudir pôr-do-sol em Ipanema. E por que não o seria no pátio da universidade? Estender esse costume é natural. Usar termos pejorativos como “porteiro” e “suburbano” também.

Outras universidades manifestaram-se. Na UERJ, logo um engravatado abastado de um dos cursos de Direito mais valiosos do país apressou-se a dardejar opiniões; debates foram realizados com professores, especialistas e organizadores da famigerada Marcha da Maconha. A UFRJ, por exemplo, teve a cara-dura de dizer que, tanto no IFCS (Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, situado ao largo de São Francisco, no Centro) quanto na Praia Vermelha e no Fundão, jamais houve ocorrência de consumo. Estatísticas, estatísticas.

Essa pauta torna-se inócua se levarmos em consideração as mais urgentes questões carentes de debate – e ações – nas universidades públicas de nosso estado. Enquanto os reitores se explicam, os pais conscientes desesperam-se por seus filhinhos criados a danoninho, os jornalistas conservadores descem o pau na rapaziada do Bob Marley, e o pessoal do Direito continua freqüentando a Filosofia só pra fazer fumaça - o tráfico continua matando mais que o uso de drogas. Vida que segue.

Sábado, Junho 27, 2009

R.I.P. - sem epitáfio


Às 21:00 fiquei sabendo: morreu Michael Jackson. Foi através da ligação de um amigo. Fez-se um silêncio sepulcral. Eu estava de carona, descendo a Estrada da canoa, em São Conrado; o ar frio da noite chocava-se contra os vidros, embaçando nossa visão. A respiração de quem estava a bordo tornou-se mais lenta, mais pesada - alguma coisa estava errada.

Tão inevitável quanto a bateria de perguntas que se sucedeu enquanto este meu amigo lutava para colher detalhes de seu interlocutor do outro lado da linha, foi minha vontade de escrever algo sobre o acontecido. Compondo o quadro propício a melancolia, garoava fino e uma árvore havia caído no meio da estrada, fechando o acesso a Barra da Tijuca, bairro para onde nos dirigíamos.

A morte de MJ é, além de o fim de uma era de hipocondria e desvios de personalidade, a cota cobrada pelo sistema insano e voraz criado por nós; esse mesmo sistema que gera anomalias e aberrações como Dubai e Las Vegas; esse circo do “entretenimento”, palco de esquetes bizarras e freakshows de formação das chamadas celebridades e seus comportamentos equivocados.

MJ ocupava, ao lado de Madonna, lugar de destaque no panteão dos deuses do pop. Foi uma espécie de messias, o semeador que abriu caminho para toda uma nova geração de artistas e empresários. Precursor dos mega shows super produzidos e turnês em escala planetária. Depois dele os cachês jamais foram os mesmos. De origem humilde, negro e talentoso, foi, talvez, a grande vítima do sucesso. A receita de sua morte contou com os ingredientes básicos do demônio da fama e vaidade: muita grana, alto grau de desequilíbrio emocional, e a conivência de médicos inescrupulosos. Alguém deveria ter dito para ele parar. “Não ter nariz não é um bom negócio, Mike”. Sei lá. Qualquer coisa do tipo.

Dureza agora será agüentar as centenas de fãs desesperando-se por aqui e por ali em todos continentes. Os presidentes de fã-clubes e os covers. Os cantores de barzinho e o Globo Repórter especial. As infindáveis matérias nos jornais e as imagens de crianças fazendo o moonwalk.

De resto, se serve de consolo, é que ao menos agora, após a “cobertura completa” das redes de TV do mundo inteiro, as vítimas do vôo 447 da Air France poderão finalmente descansar. Que os parafusos da fuselagem do airbus e a máscara higiênica de Michael, juntamente de sua luvinha prateada, tenham o que merecem: paz.

Quinta-feira, Junho 18, 2009

Um belo horizonte?


Feriado de Corpus Christi, mais um feriado prolongado. Eu, acreditem, nunca havia saído do Rio, e fui, digamos, convidado a passar o feriado em BH, Belô, Belzonte. Animado, fiz minhas malas, dei uma amarelada pros comentários a respeito do frio e me enfiei num ônibus a caminho das Gerais.

Nuvens, serras, morros, enormes pastos e campos de árvores pra extração de celulose depois, atracamos na rodoviária da cidade. Segundo o Population Crisis Commitee, da ONU, BH já foi indicada como a metrópole com melhor qualidade de vida na América Latina e é a 45ª entre as 100 melhores cidades do mundo. Bem, minha percepção difere um pouquinho da opinião dos – creio eu – seríssimos pesquisadores da ONU. Enfim, é uma percepção superficial, vinda de um cara mal humorado, bitolado, com a cara amarrotada depois de uma única parada de meia-hora pra almoçar e que acha que o Rio é a oitava maravilha do mundo, mas em todo caso, e como quem está escrevendo sou eu – tá valendo.

Achei tudo muito limpinho e organizado. O metrô é todo na superfície. Muitas de nossas avenidas, como em outros lugares do Brasil, estão lá. O centro da cidade me lembrou o Méier. Uma pequena grande cidade. O sotaque do povo também ajuda a construir essa imagem provinciana do mineiro. Tomei nojo dessa raça. Para os que acham que falar asssssssim é correto, um lembrete: nosso chiado é herança dos portugueses, os donos da língua. Então não me encham.

Bem, fiquei hospedado na área nobre da cidade, que mais me lembrou um gigantesco condomínio lotado de caipiras bem arrumados. Como toda capital, o povo liga muito pra vestuário, moda, Hebe Camargo e etc. Até aí tudo bem. O problema é a plasticidade da cidade. Tudo certinho, mas sem calor, sabe? Dizem que é a cidade com o maior índice de bares per capta do país, motivo de orgulho para os habitantes.

Do que eu mais gostei foi a Rua do Amendoim, onde rola um fenômeno curioso, magnético segundo alguns, que puxa – literalmente – os carros pra trás. Você estaciona, deixa o carro solto, e ele simplesmente começa a dar ré. Ah, a pizza cone também foi uma boa surpresa. Tremendo fast food. Limpo, rápido e com variados sabores. Me engalfinhei com uma óbvia de tomate seco, mozarela de búfala e rúcula. Segundo meu amigo Eduardo Belo, aqui no Rio temos tal iguaria. Eu não conhecia.

Outra. Uma friaca insuportável. Não tem como, num clima daquele, numa cidade cheia de ladeiras daquela, as pessoas serem legais. E olha que fui recomendado a atentar, especialmente, à hospitalidade do mineiro. Salvo pouquíssimas exceções, o contato com os locais só serviu para afirmar a superioridade carioca sobre a região sudeste. Bairrismo descarado à parte, nossos vizinhos que me desculpem, mas a sensação para nós cariocas, caras legais e despojados, é a seguinte:

Minas Gerais: como o nome diz, uma enorme mina de ouro e ferro, transformada logo em seguida em gigantesco latifúndio leiteiro e habitada por caipiras com sotaque estranho (uma pegada quase baiana em algumas palavras) e cheios da nota; da região metropolitana pouco sei e, de boa, nem quero saber.

São Paulo: um esgoto a céu aberto com um trânsito de merda, sotaque ainda pior e gente de mau gosto achando que tem bom gosto. Dinheiro não é tudo nessa vida, gente.

Espírito Santo: aqui vai um desconto pelo nome do estado – trata-se de um apêndice do Rio de Janeiro, um adendo, sem características próprias e sem extensão territorial suficiente pra ser qualquer coisa que valha à pena, ou seja: nem fede, nem cheira.

Rio de Janeiro: O Rio, ah o nosso Rio de Janeiro!! Que saudade de andar ligado na rua, de ficar preocupado com blitz falsa, com balas perdidas!! O Rio, ah o Rio de Janeiro continua lindo!!

Quase morro de satisfação ao desembarcar na Novo Rio. Vibrei com o cheiro de mijo, meus olhos lacrimejaram – e não foi por causa da uréia concentrada – ao avistar as sinistras sombras da região portuária. Queria abraçar cada traveco, cada mendigo, cada criança suja largada pela calçada.

Graças a Deus nós temos favelas pontuando de miséria (leia-se calor humano, gente como a gente) a elite branca e ressentida que se muda para Serra. Graças a Deus sou suburbano! Obrigado, meu Pai!

Espero que as outras regiões da imensidão de nosso país “com dimensões continentais” venham a cumprir com a propaganda; porque por mim, sem zoar, poderíamos transformar o nordeste em um grande resort e botar os paraíbas todos pra trabalhar de bellboys, garçons e cozinheiros. Não iria diferir muito da situação atual.

E para os politicamente corretos e doloridos de plantão, faço minha a frase do Arnaldo Branco: bando de bichas.

Sexta-feira, Maio 15, 2009

Cura da floresta


Muito se tem falado na gripe suína. A manutenção da idiotice por parte da maior rede de TV nacional se mostra eficaz ao globalizar males – alguém lembra do ebóla? – e doenças; dos conflitos armados às vinhetas, passando pelo dia-a-dia dos globais, a encheção de saco da emissora em questão é tão abrangente quanto o município de Nova Iguaçu. Mas vez em quando eles acertam, verdade seja dita. Muito mais grave do que porcos gripados, uma outra epidemia devora o Brasil. E com uma voracidade e velocidade de arrepiar careca. Em nossas paragens aportou há pouquíssimo tempo. Pra quem ainda não sabe do que estou falando, procure ficar mais atento às esquinas e becos escuros, bem ali, do ladinho da sua casa, do seu local de trabalho. Muitas das vezes a degradação não poupa nossos frágeis e acomodados olhos e sai a luz do dia. Uma multidão de famélicos zumbizados, doentes mendicantes em busca do mais novo veneno no mercado, verdadeiro inseticida de pobre: o crack.

Entregando os louros a quem merece, o RJTV tem feito um jornalismo-denúncia de grande valia. Tenho acompanhado e posso dizer: O Eduardo Paes tem uma pulga gigante dentro das calças de sua administração. O choque de ordem vai ter que ir muito além de meia-dúzia de agentes municipais pagando de gatinho na Uruguaiana. Extinção da Cracolândia? Ponto positivo. Mas a pedreira verdadeira terá de ser quebrada agora. Cada um que se segure. Uma das alternativas, na minha opinião, e de alguns órgãos que já realizam este tipo de trabalho, seria a redução de danos através de tratamentos alternativos, uma vez que a própria medicina se rende quando se trata de minimizar os prejuízos relacionados ao uso dessa substância. Poucos se livram e muitos morrem, uma equação com poucas variáveis, infelizmente. Tem gente que acredita numa outra via de cura dessa arenga com o Diabo. Abaixo, por pura preguiça, reproduzo texto disseminado por este que vos fala nas comunidades de Orkut e que esclarece nossa posição. Não tá lá essas coisas, mas dá pra ter uma idéia do tamanho do problema:

O termo “epidemia” vêm sendo utilizado tanto pela mídia quanto pelo poder público e descreve bem a gravidade da situação. A estimativa é de que 90% dos cerca de 400 jovens e adolescentes que se encontram em situação de risco e/ou morando nas ruas do Rio de Janeiro, hoje, sejam dependentes da droga. Até o presente momento estima-se que por volta de 300 favelas comercializam o crack. Os números não param de crescer. Infelizmente este quadro é recorrente em todo Brasil, basta uma busca no google para isso ser confirmado. A ausência de políticas eficazes de educação e lazer nestas comunidades, além da onipresença dos marginais e da gritante desigualdade social, dificultam sobremaneira as ações. Por conta disso, os danos colaterais tornam-se cada vez mais evidentes; tratando-se de ocorrências policiais ou que ameacem a segurança pública, é sensível o aumento dos furtos, prostituição infantil e violência entre moradores de rua; nos hospitais, a incidência de overdoses, pneumonias, tuberculose e hepatite entre os usuários cresce ao mesmo ritmo; além da taxa de mortalidade infantil, um dos nossos maiores orgulhos.

Os entraves burocráticos entre os setores competentes, a falta de aparato da rede de saúde e as questões jurídicas envolvidas pelo fato das vítimas serem em sua maioria menores de idade, criam um enorme desafio às tradicionais políticas de assistência social. A verdade é que não existe uma estratégia definida de prevenção ou de tratamento para essas pessoas. Um comitê unindo forças entre o município, o governo estadual e federal, foi organizado para traçar um plano de ação. O prazo estipulado para as primeiras medidas é de um mês - 20/05/09 mais ou menos. Aproveitando a atenção da opinião pública e a cobertura intensa da mídia, pretendemos atuar junto aos projetos que surjam deste comitê. Temos um contato na prefeitura nos mantendo informados do andamento das ações. A idéia é reduzir danos através dos tradicionais tratamentos e terapias, em conjunto com a ingestão do Santo Daime e da liturgia que envolve esta bebida sacramental.

Drogas como o crack e a cocaína possuem forte caráter depressivo e intoxicante, neste caso, o Daime cai como uma luva por suas propriedades antidepressivas e eméticas (limpeza orgânica através de vômitos) e por ser um potente veículo para o autoconhecimento. Para o dependente, que passa dias sem dormir e sem se alimentar, a ingestão do Daime dentro do contexto religioso equivale literalmente a um banho de serotonina. A força necessária para mais um dia limpo.

Após o uso em ambiente controlado, é bem evidente a melhora de humor, o aumento de apetite, a desintoxicação. A fé conhecida por si mesmo, revelada dentro do processo visionário e de expansão da consciência proporcionado pelo Daime, sem imposição de dogmas, sem exigência de condutas, torna-se para o indivíduo narcotizado em enorme fator positivo, pois o confinamento e as regras impostas são as principais barreiras enfrentadas na hora de procurar ajuda para recuperação. A pessoa vivencia a experiência religiosa de maneira livre, em uma íntima ligação com Deus. O Daime tem o poder de acessar o inconsciente, trazer à tona a sombra junguiana, para que nós possamos iluminar as nossas fraquezas, nossos defeitos de caráter e mazelas. É uma cura para o corpo, para mente e, principalmente, para o espírito.

Centros ao redor do mundo vêm obtendo excelentes resultados com terapias tradicionais em conjunto com a Ayahuasca ou Daime. O mais antigo deles funciona desde 1992 no Peru, dirigido pelo médico francês Jacques Mabit, trabalhando exclusivamente com dependência química. Nós do Céu do Mar, no Rio de Janeiro, estamos nos articulando junto ao poder público e ao terceiro setor para criação de um projeto de redução de danos através da orientação religiosa, psicoterapia e Daime.

A nossa crença - embasada cientificamente em diversas pesquisas e experiências positivas - é a de que se a pessoa se entrega, a cura acontece. Acreditar no poder curativo dessa bebida ancestral é fundamental. A doença cresce e nós temos o remédio. A coisa é séria. Existem ótimas pesquisas sobre o assunto. Essa é uma dívida cármica contraída por nossa cidade através de anos e anos de descaso e exploração. É o mesmo grito das minorias que, de tempos em tempos, insurge contra seus opressores. Mais do que uma obrigação espiritual, de caridade, o combate a esse mal que ameaça tomar conta de nosso país é, acima de tudo, um exercício de cidadania.

Segunda-feira, Abril 27, 2009

Meio período



Praça Tiradentes, calçada oposta ao bar-restaurante Deu La Deu, número 58 da avenida Passos.

Ao avistá-la, jurava vê-la flutuando a um palmo da calçada. Rosto franzido, top desbotado, na pele manchas aqui e ali. A barriga, marcada pelo cós justo da saia apertando os excessos. O cabelo molhado desenrolava-se em molas desiguais, um filete branco de creme para pentear escorrendo pela nuca.

Mandou o motorista diminuir a velocidade.

Ela, de lá, torceu o pescoço e estremeceu nos saltos gastos. Nos vidros espelhados do carro, a passos lentos acompanhava o reflexo do próprio corpo: conferia a bunda, o passo, o lábio.

O vidro foi baixando devagarzinho.

Ele arriscou, incerto do que dizer:

- E aí...

A surpresa ficou por conta da resposta, cheia de musicalidade, ratificando seu palpite:

- Se acaso me quiseres, bebê, vou logo avisando, sou dessas mulheres qualquer coisa assim, por uma coisa à toa, uma noitada boa ou um toque de cetim...

Interrompeu:

- Bethânia?

- Não, bobo. Jussara. Me chamam de Juju.

- Digo, essa música... É do Chico, gravada pela Bethânia, não é?

- Ah! Hahaha! Sei não, gostoso. Esse versinho falo desde sempre, minha assinatura, sabe? Mas não é coisa minha não, aprendi com Marlene, aposentada já. Agora é meu né?

- Entra, filha.

Ela entrou. Segundo a tática de caça os primeiros movimentos devem ser de aproximação. Ainda desconfortável, hesitava como um colegial diante da namoradinha. No fundo fantasiava isso. As moças, como gostava de chamá-las, tinham esse dom de ter tudo para não o ter - uma beleza anulada, camuflada na vulgaridade e no excesso de maquiagem. O grande lance era descobrir para que lado se gira a roleta, que mistérios se escondem sob os encantos das cintas-ligas, das calcinhas gastas.

Sorriu, só para descontrair. Ela devolveu o sorriso: faltando um dente.

Ordenou que o motorista seguisse para o hotel. Qualquer que fosse.

- Conheço um bem pertinho, meu bem.

- Ótimo.

No quarto, um cheiro fortíssimo de alfazema. O tic-tac do relógio de corda, àquela hora da noite, abalava as finas paredes de alvenaria do cômodo. Andou de um lado a outro, como se quisesse medir o tamanho do aposento. Perdeu a conta de quantas vezes perdeu tempo em quartos como esse, à procura nunca soube bem de quê. Tempo marcado por relógios idênticos em noites idênticas.

Ela aparece após um banho refrescante. Nota: o intuito da chuveirada é relaxar o cliente pouco à vontade entre os detalhes da cortina encardida, o estado dos lençóis, ou as mínimas opções do bar.

Encurralado e sem maiores alternativas, decide sentar-se na ponta da poltrona ao canto.

Desfila de toalha enrolada, rainha da noite. Passa lasciva, esforçando-se em ser sensual a estas tantas madrugadas. Ele checa o assento da poltrona. Tosse por duas vezes de forma forçada. Olha para o teto, coça a cabeça. Pensa em acender um cigarro. Desiste. Aí ela senta ao seu lado.

- Relaxa, querido.

Com a bunda ainda molhada, o sexo mais mal enxuto do que úmido de fato, joga as coxas cansadas, porém ainda com certa firmeza, em cima dele, que, como se não esperasse por isso, se encolhe da carícia. Serve um uísque. Antes da culpa em si, uma sorrateira sensação de vazio.

Deixa o copo de lado, estrategicamente na ponta da cabeceira da cama. Tudo planejado para que caia com o vai-e-vem das estocadas.

O taxímetro da moça girando, bandeira dois, de modo que o restante da hora paga antecipada – Pra não ter problema tá, meu amor? – é gasto, valendo o valor, em comoventes esforços. Saliva escorrendo pelos cantos da boca, arranhões e sussurros, o membro flácido lutando heroicamente.

Vinte minutos depois ele está de pé, fumando debruçado no peitoril da janela. A fumaça sobe e faz desenhos à luz da lâmpada vermelha. Algumas contas a pagar, comprar o presente da filha, quem sabe se aposenta esse ano... pensa que não tem muito do que se queixar.

Irrompe ela:

- Foi bom pra você?

Não respondeu.

Vestiu a camisa, catou o paletó, as meias ainda no pé.

Virou-se e saiu o mais rápido possível.